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Dorje Shugden é uma entidade cuja real natureza — deidade tutelar iluminada (Yidam), protetor subjugado (Dharmapala) ou força negativa e maligna[1] (Rakshasa) — é motivo de contenda entre praticantes do Budismo Tibetano, em especial a escola Gelug.
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Dorje Shugden (rdo-rje shugs-ldan), "Poderoso Raio", também conhecido como Dholgyal (Wylie: Dhol-rgyal), é uma entidade relativamente recente, mas altamente controversa, dentro do complexo panteão do budismo dos himalaias. Dorje Shugden é considerado:
Desde o século XIX, ele é associado principalmente com dois lamas influentes: Pabongkha e Trijang Rinpoche da escola Gelug. Sua origem pode remontar à escola Sakya, onde ele era considerado como um espírito mundano local. Na escola Gelug ele foi mencionado e motivo de disputa pela primeira vez no tempo do quinto Dalai Lama. Apesar de que Shugden nunca foi uma prática oficial da instituição Gelug, nem nenhuma escola do budismo tibetano, muitos monges e professores Gelug iniciaram sua prática depois que Pabongkha começou a disseminá-la. Apesar de ele ter sido criticado pelo décimo terceiro Dalai Lama, tendo inclusive se comprometendo em não mais ensinar a prática, depois da morte do décimo terceiro Dalai Lama, Pabongkha voltou à ensiná-la. No final das contas, o décimo quarto Dalai Lama recebeu a prática de um de seus tutores, Trijang Rinpoche, apesar de mais tarde ter se distanciado dela.
A controvérsia atual acerca deste entidade refere-se à um ramo particular da escola Gelugpa, com tendências exclusivistas, que surgiu no Tibete central e oriental durante o final do século XIX e início do XX, onde tal entidade era considerada como demarcadora dos limites da prática religiosa Gelugpa, se opondo especialmente à influência crescente de pensadores do movimento Rimê (não sectário). Muitos Gelugpas, assim como muitos Kagyupas, Sakyapas e Nyingmapas, começaram à seguir as idéias do movimento Rimê, mas Gelugpas conservadores, especialmente Pabongkha, ficaram preocupados com a "pureza" da escola Gelug e se opuseram ao movimento Rimê. Eles estabeleceram em contrapartida um sistema especial de exclusivismo Gelug. Muitas fontes afirmam que discípulos de Pabongkha destruíram monastérios Nyingma ou os converteram em monastérios Gelug e destruíram estátuas de Padmasambhava.
Esta tensão constante chegou à novas proporções no contexto do exílio do povo tibetano, onde o décimo quarto Dalai Lama começou primeiro a se distanciar de Shugden e mais tarde usou sua posição como líder religioso e secular do Tibete para dar fim à crescente do culto à Shugden.
Enquanto que os seguidores de Shugden estão convencidos de que ele é um Buda, sem qualquer possibilidade de ser danoso, os que se opõe à Shugden chamam atenção para o seu caráter sectário e demoníaco. Esta última visão também é compartilhada por lamas Gelug, mas principalmente por muitos altos lamas das outras escolas tibetanas, como Namkhai Norbu Rinpoche, e Gangteng Tulku Rinpoche que disse, "a maioria dos Nyingmas, Kagyus e Sakyas acreditam que Shugden é um demônio. Pessoas que praticam Shugden irão conseguir muito dinheiro, muitos discípulos e muitos problemas."[2]
A disputa tomou proporções internacionais na década de 1990, quando afirmações do Dalai Lama contra a prática de Shugden fizeram a Nova Tradição Kadampa, baseada na Inglaterra, se oporem à ele (Dalai Lama). Geshe Kelsang disse que praticantes tibetanos de Dorje Shugden pediram-no para ajudá-los. Como resultado, Geshe Kelsang enviou uma carta aberta ao Dalai Lama, à qual não recebeu qualquer resposta, subseqüentemente criando a Shugden Supporter Community (SSC), que organizou protestos e uma enorme campanha junto à mídia durante a turnê de ensinamentos do Dalai Lama à Europa e Estados Unidos da América, acusando-o de perseguição religiosa e contrário à liberdade de prática religiosa e de espalhar mentiras. De acordo com Tashi Wangdi, representante do Dalai Lama para as américas, não houve supressão do culto à Shugden. "Oficialmente, não houve qualquer repressão ou recusa aos direitos dos praticantes," disse Wangdi. "Mas depois do conselho de Sua Santidade [contra o culto] muitas ordens monáticas adotaram regras e regulamentos que não aceitariam praticantes do culto de Shugden em suas ordens monáticas."[3]
Na Índia, alguns protestos e oposições foram organizados pela Dorje Shugden Religious and Charitable Society com o apoio da SSC.[4]
A Shugden Supporter Community (SSC) pediu à Anistia Internacional (AI) para examinarem as evidências para estas declarações, mas a Anistia respondeu afirmando que "Nenhum dos materiais que a AI recebeu contêm evidências de abusos que se enquadrem no mandato de ação da AI"[5]
Em fevereiro de 1997, três monges budistas tibetanos anti-Shugden, incluindo o confidente e amigo mais próximo do Dalai Lama de setenta anos, Lobsang Gyatso (diretor do Institute of Buddhist Dialectics), foram brutalmente assassinados em Dharamsala, Índia, a capital tibetana no exílio. Os monges assassinados foram esfaqueados repetidas vezes e retalhados de uma maneira semelhante à um ritual de exorcismo. O polícia indiana acredita que os assassinatos foram cometidos por monges leais à Shugden, e que agora estão sob a proteção do governo chinês.[6] Em contrapartida a Shugden Society em Nova Delhi nega qualquer involvimento nos assassinatos ou ameaças.[7] Geshe Kelsang se distanciou: "Matar tais monges e geshe é muito ruim, é horrível. Como podem budistas Mahayana que estão sempre falando de compaixão matá-los? Impossível. Existem muitas explicações diferentes [para os assassinatos]. Existem muitos praticantes de Shugden pelo mundo afora, e cada um deles é responsável por suas próprias ações. Mas definitivamente, podemos dizer que estes assassinatos são muito ruins."[8]
A origem histórica de Dhogyal (Shugden) não é clara. A maioria dos documentos escritos sobre ele aparecera no século XIX. Existem diferentes versões transmitidas oralmente de suas origens, mas no que tange os pontos chave elas se contradizem mutuamente. Algumas referências à Shugden são achadas na biografia do quinto Dalai Lama, então há algum concenso de que as origens de Shugden remontam àquela época. De acordo com uma carta[9] do presente líder da tradição Sakya, Sua Santidade Sakya Trizin, Alguns sakyapas propiciavam Shugden como uma entidade menor, mas Shugden nunca foi parte das intituições de Sakya. Lama Jampa Thaye, um britânico professor tanto da escola Sakya como da escola Kagyu, fundador da Dechen Community, sustenta a opinião de que "os sakyas geralmente têm sido ambivalentes sobre Shugden [...] A visão comum aos sakyapas sobre Shugden é que ele é controlado por um Mahakala eme particular, aquele conhecido como Mahakala de Quatro Braços. Desta maneira, ele é um jig rten pai srung ma, uma entidade mundana, ou demônio, que não oferece mal à tradição Sakya pois está sob a influência deste Mahakala específico."[10] A ampla disseminação de Shugden na escola Gelug, é atribuída à Pabongkha, um lama Gelugpa do início do século XX, "durante as décadas de 1930 e 1940, e foi dessa forma que uma prática antes marginalizada se tornara o elemento central da tradição Gelug."[11]
Esta questão tem uma longa história e envolve não apenas o décimo quarto Dalai Lama, mas também o décimo terceiro e o quinto. Esta história é discutida extensivamente num artigo do Professor Georges Dreyfus.
O "mito fundador" por trás do culto à Shugden envolve um lama chamado Drakpa Gyaltsen (1618-1655), que era um rival do quinto Dalai Lama, Lobsang Gyatso (1617-1682). Na realidade, Drakpa parece ter sido candidato a se tornar o próprio quinto Dalai Lama (ou seja, quando ainda criança, alguns lamas o indicaram como uma das possíveis reencarnações do quarto Dalai Lama), mas ele fora descartado. A rivalidade entre eles continuou, entretanto, o que de acordo com a lenda resultou na morte prematura (talvez por assassinato) de Drakpa Gyaltsen. Mais tarde Trijang Rinpoche disse que na realidadde não havia rivalidade e apontou esse evento como um "meio hábil" (para domar a mente dos discípulos).
Entre as diferentes histórias sobre a origem de Dorje Shugden está a idéia de que vítimas de assassinato geralmente se transformam em espíritos vingativos, e da mesma forma Lama Drakpa Gyeltsen conseguiu transmutar sua ira para fins religiosos, a saber, a proteção da tradição Gelugpa contra a influência de outras escolas. Por isso da sua transformação na "entidade protetora" Shugden, visando salvaguardar a "pureza" da escola Gelug. Georges Dreyfus duvida da historicidade dessa lenda, pois não existem fontes escritas confiáveis sobre seus antecedentes históricos. A lenda foi escrita mais tarde, por defensores de Shugden.
Figuras chave na popularização moderna do culto a Dorje Shugden são Pabongkha (1878-1944), um lama da província de Kham, que aparenta ser a primeira figura histórica da escola Gelugpa a promover o culto de Shugden como elemento principal desta escola; e Trijang Rinpoche (1901-1981), um lama do monastério Ganden, que fora um dos tutores do presente Dalai Lama. Pabongkha colocou grande ênfase em disseminar esta prática e assim tornou a prática bastante popular na tradição Gelug. Pabongkha foi tolhido pelo décimo terceiro Dalai Lama por agir dessa forma, prometendo não mais fazê-lo, porém após a morte do décimo terceiro Dalai Lama, Pabongkha continuou à divulgar tal prática com fervor ainda maior que antes.
No início, Dorje Shugden era visto por Pabongkha como uma entidade mundana que deveria ser controlada por meio de poderes tantricos, mais tarde introduzindo-o como uma emanação de Manjushri. De acordo com a visão de Pabongkha, Lama Drakpa Gyeltsen era uma encarnação de Dorje Shugden, sua morte não sendo a causa do surgimento de Dorje Shugden. Ele estabeleceu uma linha de argumentação, afirmando que Shugden tem uma conexão muito próxima com os praticantes da tradição de Tsongkhapa, e que agora era o poderoso protetor destes, apto a conceder bençãos e criar condições apropriadas para que as realizações do Dharma floresçam. Para fazer isso, Pabongkha estabeleceu a idéia de que os três protetores originais da tradição de Tsongkhapa (Kalarupa, que fora domado pelo próprio Tsongkhapa, Vaisravana e Mahakala) haviam ido para suas terras puras, não tendo mais poder pois o carma dos adeptos da escola Gelug havia mudado e que eles deveriam agora seguir Shugden.
Os conflitos e refutações não podem ser entendidas completamente sem um exame dos aspectos históricos, sociais, religiosos e culturais, bem como as tensões entre reformistas, conservadores e tradicionalistas no Tibete. A prática de Shugden envolve também uma rede de relações familiares. Por exemplo, um médium que servia como oráculo de Shugden (Kuten Lama) era tio de Geshe Kelsang Gyatso, fundador da Nova Tradição Kadampa. Além disso, o Tibete era bastante isolado e não havia muito do ponto de vista científico moderno. Mesmo na época em que os chineses já haviam tomado o Tibete, professores budistas naquele país ainda ensinavam (sendo inclusive aprendido por S.S. Dalai Lama) que a Terra era achatada, que a lua brilhava por si só, que ela estava à mesma distância do nosso planeta que o Sol, entre outras coisas.
Desde o início, esta prática tem sido motivo de disputa dentro ou entre as quatro escolas do budismo tibetano. Tem havido uma disputa na tradição Gelug para saber se ele é um Buda ou um demônio; além disso, a maioria dos mestres das outras escolas tibetanas (Kagyu, Nyingma e Sakya) vêem Shugden (Dhogyal) como um demônio. O próprio Pabongkha era contraditório com relação à Shugden. Em seus primeiros comentários sobre a prática, ele lidava com ele (Dholgyal) da maneira como se deve lidar com protetores mundanos: o discípulo deve controlá-lo com seus poderes tantricos e dar-lhe ordens. Mais tarde Shugden passou a ser considerado como uma manifestação do bodhisattva da sabedoria, Manjushri.
A disputa pode ser resumida da seguinte forma: