Latim medieval

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O latim medieval foi uma forma do latim utilizada na Idade Média, primariamente como um meio de interação erudita e como língua litúrgica da Igreja Católica Romana medieval, mas também como a língua da ciência, literatura, lei e administração. Apesar da origem clerical de vários de seus autores, o latim medieval não deve sr confundido com o latim eclesiástico. Não há nenhum consenso relativo a exatamente quando terminou o latim tardio e começou o latim medieval. Alguns estudos colocam o início com o surgimento do latim eclesiástico na metade do século IV, outros por volta do ano 500.[1]

Página com texto latino medieval do Carmina Cantabrigiensia (Cambridge University Library, Gg. 5. 35), 11. cent.

Índice

[editar] Mudanças no vocabulário, síntaxe, gramática e ortografia

[editar] Influências

O latim medieval era caracterizado por um vocabulário aumentado, que emprestava livremente de outras fontes. Era influenciado grandemente pea língua da Vulgate, que possuía diversas peculiaridades estranhas ao latim clássico que eram consequência da tradução mais ou menos direta do grego e do hebreu; estas peculiaridades eram refletidas não apenas no seu vocabulário, mas também na sua gramática e síntaxe. A língua grega forneceu uma boa parte do vocabulário técnico do cristianismo. As várias línguas germânicas faladas pelas tribos germânicas, que invadiram a Europa ocidental, também foram fontes importantes de novas palavras. Líderes germânicos tornaram-se os líderes da Europa ocidental, e palavras de suas línguas foram importadas livremente pelo vocabulário da lei. Outras palavras mais comuns foram substituidas por variações do latim vulgar ou fontes germânicas porque os vocábulos clássicas caíram em desuso.

O latim também espalhou-se por áreas como a Irlanda e a atual Alemanha, onde não se falavam línguas românicas e que nunca haviam estado sob jugo do Império Romano. Trabalhos escritos nestes países, onde o latim foi uma língua aprendida sem nenhuma relação com o vernacular local, também influenciaram o vocabulário e a síntaxe do latim medieval.

Já que assuntos abstratos como ciência e filosofia eram tratados em latim, o vocabulário latino desenvolvido para estes assuntos é fonte de muitos termos técncos nas línguas modernas. Palavras em português tais como abstrato, sujeito, comunicar, matéria, provável e seus cognatos emoutras línguas européias geralmente possuem o significado dado a elas pelo latim medieval.

Um manuscrto iluminado de um livro de horas contendo orações em latim medieval.

[editar] Influência do latim vulgar

A influência do latim vulgar também é aparente na síntaxe de alguns escritores do latim medieval, embora o latim clássico continuasse tendo alta importância e fosse estudado como modelo para composições literárias. O ponto alto no desenvolvimento do latim medieval como uma língua literária veio com a renascença carolíngea, um ressurgimento do aprendizado sob a patronagem de Carlos Magno, rei dos Francos. Alcuíno foi o principal conselheiro de Carlos Magno sobre assuntos eclesiásticos e educação e um importante escritor; sua influência levou a um renascimento da literatura e aprendizado latinos após o período menos prolífico após a desintegração final da autoridade romana na Europa Ocidental.

Embora estivesse simultaneamente desenvolvendo-se nas línguas românicas, o latim propriamente dito manteve-se bastant conservativo, já que não era mais uma língua nativa e existiam muitas gramáticas antigas e medievais dando uma forma padrão. Por outro lado, em senso estrito, não havia apenas uma forma de "latim medieval". Todo autor latino no período medieval falava latim como uma segunda língua, com vários graus de fluência e a sínntaxe, gramática e vocabulário frequentemente eram influenciadas pela línga nativa do autor. Isto era particularmente verdadeiro a partir do século XII, após o quê a língua tornou-se cada vez mais adulterada: documentos em latim medieval tardio escritos por francófonos tendiam a mostrar semelhanças com a gramática e vocabulário franceses medievais; os escritos por alemães eram semelhantes ao alemão, etc. Por exemplo, ao invés de seguir a prática do latim clássico de colocar o verbo no fim da sentença, os escritores medievais frequentemente seguiam as convenções de suas próprias línguas nativas. Enquanto o latim não possuía artigos definidos ou indefinidos, escritores medievais algumas vezes usavam formas de unus como um artigo indefinido e formas de ille (refletindo o uso nas línguas româncas) ou mesmo de quidam (significando "uma certa pessoa/coisa" em latim clássico) como uma espécie de artigo definido. Diferentemente do latim clássico, no qual esse ("ser") era usado como o único verbo auxiliar, escritores do latim medieval as vezes usavam habere ("ter"), como ocorre em línguas germânicas e românicas. A construção do infinitivo acusativo do latim clássico era algumas vezes ignorada em favor da introdução de uma sentença subordinada com a palavra quod (ou às vezes quia). Isto é quase idêntico, por exemplo, ao uso de que em construções similares em francês.

Em todas as épocas a partir do final do século VIII existiram escritores cultos (especialmente dentro da Igreja) que eram suficientemente familiares com a síntaxe clássica para estarem cientes de que estas formas e usos eram 'errôneos' e capazes de resistirem ao seu uso. Assim o latim de um teólogo como São Tomás de Aquino ou de um historiadr erudito clássico como Guilherme de Tiro tendiam a evitar a maior parte das características descritas acima, mostrando o seu período apenas no vocabulário e na grafia; as característicaslistadas são muito mais proeminentes na linguagem de advogados (por exemplo, o livro inglês do século XI Domesday Book), médicos, escritores técnicos e cronistas seculares. Entretanto, o último ponto mencionado — a asserção indireta com quod — era especialmente ubíqua e podia ser encontrada em todos os níveis de erudição.

[editar] Mudanças na ortografia

As diferenças mais marcantes entre o latim clássico e o medieval podem ser encontradas na ortografia. Algumas das mais frequentes diferenças são:

  • O ditongo ae é usualmente colapsado e escrito simplesmente como e (ou e caudata, ę); por exemplo, puellae pode ser escrito puelle (ou puellę). O mesmo ocorre com o ditongo oe, por exemplo em pena, Edipus, de poena, Oedipus. Isto já ocorria em inscrições em moedas do século IV (por exemplo, reipublice ao invés de reipublicae).
  • Devido a um forte declínio no conhecimento de grego, em palavras emprestadas ou nomes estrangeiros do, ou transmitidos pelo, grego, o y e o i passaram a ser usados mais ou menos indiferentemente: Ysidorus, Egiptus, de Isidorus, Aegyptus. Isto também ocorreu com palavras puramente latinas : ocius ('mais rapidamente') aparece como ocyus e silva como sylva, esta última sendo uma forma que sobreviveu até o século XVIII e portanto tornou-se parte do latim botânico moderno.
  • h podia ser omitido, então habere tornava-se abere, ou mihi tornava-se mi (o último também ocorria em latim clássico); ou, mihi podia ser escrito michi, indicando que o h passou a ser pronunciado k, que é sua pronúncia mesmo hoje em dia no latim eclesiástico (esta pronúncia não é encontrada no latim clássico).
  • A perda do h na pronúncia também levou à adição do h na escrita onde ele não existia originalmente, especialmente próximo à letra r, como em chorona para corona, uma tendência algumas vezes vista também no latim clássico.
  • -ti- antes de uma vogal é frequentemente escrito como -ci-, assim divitiae torna-se diviciae (ou divicie), tertius torna-se tercius, vitium vicium.
  • A combinação mn pode ter outra plosiva inserida, assim alumnus torna-se alumpnus, somnus sompnus.
  • Consoantes únicas frequentemente eram dobradas, ou vice versa, assim tranquillitas torna-se tranquilitas e Africa torna-se Affrica.
  • vi, especialmente em verbos no tempo presente, pode ser perdido, assim novisse torna-se nosse (isto ocorreu no latim clássico também mas foi mais frequente no latim medieval).

Estas diferenças ortográficas eram frequentemente devidas à mudanças na pronúncia ou, como no último exemplo, na morfologia, que os autores refletiam nos seus escritos. Pelo século XVI, Erasmus reclamou que falantes de países diferentes não conseguiam compreender a forma de latim que cada um falava.[2]

A mudança gradual no latim não escapou à percepção dos homens daquela época. Petrarca, escrevendo no século XIV, reclamou deste declín io linguístico, que ajudou a alimentar seu descontentamento com sua própria época.

[editar] Literatura latina medieval

A literatura latina medieval possui uma vasta gama de textos, incluindo trabalhos tão diversos quanto sermões, hinos, textos hagiográficos, literatura de viagem, histories, épicos, e poesia lírica.

[editar] Período inicial

A primeira metade do século V viu a atividade literária dos grandes autores cristãos Jerônimo (c. 347–420) e Agostinho de Hippo (354–430), cujos textos tiveram uma influência enorme no pensamento teológico da Idade Média, e no discípulo de Agostinho, Próspero da Aquitânia (c. 390-455).

[editar] Movimentos literários do latim medieval

[editar] Trabalhos importantes em latim medieval


[editar] Notas

  1. Jan M.Ziolkowski, "Towards a History of Medieval Latin Literature", in: F. A. C. Mantello and A. G. Rigg (eds.), Medieval Latin: An Introduction and Bibliographical Guide (Washington, D.C., 1996), pp. 505-536 (pp. 510-511)
  2. Veja Desiderius Erasmus, De recta Latini Graecique sermonis pronunciatione dialogus, Basel (Frobenius), 1528.

[editar] Referências

  • K. P. Harrington, J. Pucci, and A. G. Elliott, Medieval Latin (2nd ed.), (Univ. Chicago Pres, 1997) ISBN 0-226-31712-9

[editar] Ligações externas


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